Homem com bandeira lituana ao lado de tanque soviético

O processo de independência da Lituânia perante a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) foi marcado por muita luta e persistência por parte de toda a população.

Iniciado pela resistência dos partisans no período pós-Segunda Guerra Mundial, culminou no surgimento em 1988 do Movimento Democrático Sąjūdis que em 1989, sob a liderança de Algirdas Brazauskas, foi responsável pela separação do Partido Comunista da Lituânia em relação ao Partido Comunista da União Soviética. Foi a primeira vez que uma república soviética mostrou-se corajosa o bastante para confrontar o governo central.



Bandeira da República Soviética Lituana entre 1953 e 1988

O mundo estava passando por grandes transformações após a queda do muro de Berlim. A Lituânia e os países bálticos mostraram-se um grande problema para o Kremlin desde o evento “Caminho do Báltico” (Baltijos Kelias), com as crescentes movimentações populares e com a “rebeldia” do partido comunista lituano.

Em 11 de março de 1990 o parlamento lituano se autodeclarou independente, sendo a primeira das repúblicas soviéticas a fazê-lo. O governo central soviético não reconheceu a separação e como retaliação tomou diversas medidas, sendo a principal um forte bloqueio econômico com o aumento do preço e a diminuição de oferta dos produtos de primeira necessidade, como combustível e alimentos.

Filas nos postos de gasolina - “Scanpix” / “Ria Novosti” Nuotrauka

Nos primeiros dias de 1991 ocorreram diversos eventos marcantes para o fortalecimento dos grupos pró-independência e do novo governo:

● 7 de janeiro: em carta ao presidente soviético Mikhail Gorbachev, o líder do Partido Comunista da Lituânia Mykolas Burokevičius exigiu o reconhecimento da independência do país e a introdução de um governo presidencial na Lituânia. Com este pedido, as células do Partido Comunista da União Soviética em Vilnius, Kaunas e em outras grandes cidades planejaram a ocupação dos principais prédios do governo, entrando em contato com o governo central soviético, a KGB e o Ministério da Defesa para interferirem na situação lituana;

● 7 e 8 de janeiro: secretamente, o Comitê de Defesa Nacional, criado pelo Partido Comunista Lituano, preparava um plano para a introdução do novo governo presidencial na Lituânia;

● 8 de janeiro: Vytautas Landsbergis, presidente do Conselho Supremo, convocou toda a população para se reunir no Parlamento como forma de apoio ao novo governo, que havia decidido cancelar o aumento abusivo de preços. No mesmo momento, os apoiadores da Organização Pró União Soviética (Jedinstvo) também seguiram para o Parlamento com o objetivo de tomar controle do prédio.



Protesto da população lituana em frente ao Parlamento - Foto: Andrius Petrulevičius

Encontro do grupo Jedinstvo - LRS Archyvo / Alfedo Girdziušo



A tensão entre o governo soviético e os nacionalistas lituanos só aumentava, o que levou a URSS a enviar para Vilnius tanques de guerra, paraquedistas e o grupo Alpha da KGB, responsável por combater grupos extremistas e revolucionários.

Barricadas próximo ao Parlamento Lituano.



● 10 de janeiro de 1991: Gorbachev deu um ultimato à Lituânia: "(...) restaure imediatamente e completamente a Constituição da URSS e a Constituição da República Socialista Soviética da Lituânia e revogue a adoção anterior dos atos inconstitucionais". O novo parlamento lituano recusou-se a obedecer e o Comitê de Defesa Nacional declarou “(...) o nosso dever é assumir todo o poder na Lituânia”.

Os ataques do exército soviético e do grupo Alpha aumentavam cada vez mais, principalmente na capital Vilnius. Vytautas Landsbergis tentou por diversas vezes entrar em contato com Gorbachev, porém os soviéticos dificultavam o encontro.

Imagem do Livro de Vytautas Landsbergis “Kaltė ir atpirkimas”

● 11 de janeiro: tropas soviéticas invadiram o Palácio de Imprensa, sede das instalações da maioria dos jornais lituanos. A partir de então, milhares de pessoas desarmadas começaram a vigiar de perto o Parlamento, a Torre de TV e sede da Rádio e Televisão, situados na capital Vilnius;

Tanques soviéticos em frente ao Palácio da Imprensa - Foto: Paulius Lileikis



● 13 de janeiro: o exército soviético tenta invadir a Torre de TV e a sede da Rádio e Televisão, mas o grande número de manifestantes tenta impedir a entrada deles no prédio. A televisão continuava transmitindo as manifestações pró independência mesmo com os soldados já tendo invadido o prédio e destruído tudo ao longo do caminho. Eles se recusaram a desistir da invasão mesmo com o grande número de pessoas presentes no local. Às 2h02 a rádio local, com sede no segundo andar do edifício, declarou: “Estamos com você, Lituânia! Forneceremos informações pelo tempo que pudermos”. Pouco antes da estação de rádio ser desligada um locutor disse: "Nos dirigimos a todos aqueles que nos ouvem. É possível que o exército possa nos calar à força, mas ninguém nos fará renunciar à liberdade e à independência". Na mesma hora Landsbergis repetia na televisão: "A Lituânia estará livre" e seis minutos depois a imagem da locutora Eglė Bučelytė desapareceu das telas. A televisão conseguiu mostrar a multidão e as imagens da Praça da Independência por mais oito minutos. Às 2h17 a imagem desapareceu e, um minuto depois, era possível ouvir os manifestantes cantando uma das mais importantes e tradicionais canções do país "Lietuva, brangi!".

Essa ocupação dos prédios de rádio e televisão na Lituânia pelo exército soviético resultou na morte de 14 pessoas (sendo 4 pelos tanques que abriam caminho a força) e feriu mais de 700 pessoas desarmadas (o número de vítimas aumentou posteriormente). Gorbachev afirmou que soube da ação do exército apenas no dia seguinte, segunda-feira 14 de janeiro de 1991, pois havia ocorrido de madrugada enquanto ele dormia.

Homem se coloca em frente a um tanque soviético para impedir a ocupação da Torre de TV

Protesto da população lituana na Praça da Liberdade - Foto: Zenonas Nekrošius

As 14 pessoas mortas são vistas até hoje como heróis da pátria lituana por terem perdido a vida lutando pela liberdade do país:



Realização da Santa Missa em memória dos que morreram na Torre de TV



Menos de 2 meses depois, no dia 11 de março de 1991, a Lituânia se tornou um país independente, portanto o dia 13 de janeiro é considerado uma data vital para esse processo.

Na época esse foi considerado o ataque mais sangrento contra cidadãos que protestavam pacificamente. Por isso tudo no dia 13 de janeiro é comemorado o Dia dos Defensores da Liberdade da Lituânia, um dia de luta e heroísmo que lembra a todos que conseguir a liberdade não foi um ato fácil e que por isso ela deve ser protegida sempre.



Memorial dos defensores da liberdade situado na Torre de TV

Em 2014 uma campanha foi criada com o objetivo de perpetuar a memória, principalmente entre os jovens, de todos aqueles que lutaram pela liberdade e independência da Lituânia. Por esta razão desde então no dia 13 de janeiro todos os lituanos são convidados a colocar no peito a flor miosótis (em lituano chamada neužmirštuolė - “não me esqueça” em tradução livre) como símbolo de resistência e respeito. Junto com a flor, o slogan criado é declarado por todos os lituanos neste dia: “Aš prisimenu, kodėl esame laisvi!” (Eu não me esqueci quanto custou a nossa liberdade).



Imagem da campanha em memória dos defensores da liberdade

Escrito por Andréa de Alencar Kasteckas

Referências:

15 MIN. 10 svarbiausių 1991-ųjų sausio įvykių, kuriuos privalote žinoti. Disponível em: https://www.15min.lt/naujiena/aktualu/lietuva/10-svarbiausiu-1991-uju-sausio-ivykiu-kuriuos-privalote-zinoti-56-565845. Acessado em 08/01/2020. (tradução livre do autor)

15 MIN. Sausio 13 d. startuoja iniciatyva „Neužmirštuolė“. Disponível em:https://www.15min.lt/ikrauk/naujiena/svarbu/sausio-13-d-startuoja-iniciatyva-neuzmirstuole-515-397564. Acessado em 08/01/2020. (tradução livre do autor)

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TRACEVSKIS, Rokas M. Jan. 13, 1991 's the day that changed the world. Disponível em: https://www.baltictimes.com/news/articles/24215. Acessado em 08/01/2020. (tradução livre do autor)

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