Há 30 anos os países bálticos (Lituânia, Letônia e Estônia) mostraram ao mundo o poder da solidariedade e da união ao organizarem em conjunto um protesto pacífico pela sua independência perante a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS).

Baltjos kelias - caminho do báltco
Picture by Kusurija / Wikimedia Commons https://visit.kaunas.lt/en/kaunastic/28-years-ago-today-the-baltic-chain/

No dia 23 de agosto de 1939, Joachim von Ribbentrop, representante do governo nazista, e Vyacheslav Molotov, representante do governo soviético, assinaram um tratado que mudaria para sempre o futuro da Europa. No acordo, conhecido como Pacto Molotov-Ribbentrop, ficaram definidas as zonas de influência de cada uma das duas potências europeias da época, sendo que a região dos países bálticos ficou na esfera da URSS. Porém, em setembro de 1939 o governo nazista quebrou uma importante cláusula do acordo ao invadir e controlar a Polônia, levando assim ao início da II Guerra Mundial (1939-1945).

Tratado Molotov-Ribbentrop

O ministro do exterior da Alemanha, Joachim Von Ribbentrop (de braços cruzados), o líder soviético Josef Stalin (de branco), e o ministro do exterior da URSS, Vyacheslav Molotov (extrema direita), após a ratificação do Tratado Molotov-Ribbentrop em 23 de agosto de 1939. Créditos: National Archives and Records Administration.(https://incrivelhistoria.com.br/pacto-molotov-ribbentrop/)

Durante a guerra a Lituânia sofreu com ataques vindos do leste e do oeste, sendo invadida e controlada pelos alemães durante alguns anos. Com o fim do conflito tornou-se definitivamente uma das repúblicas socialistas soviéticas, juntamente com a Letônia e a Estônia.

A reorganização administrativa, econômica, educacional e cultural começou com a liquidação de tudo que se referia a soberania nacional desses países. A ideologia comunista era promovida em todos os lugares, principalmente na imprensa, nas escolas e nos locais de trabalho. Com isso, o regime impôs deportações de opositores em massa para a Sibéria, proibição do uso dos seus idiomas e bandeiras originais, censura e controle das atividades nacionalistas, entre outras sanções.

mapa URSS

https://www.todoestudo.com.br/historia/urss

Na década de 70 o governo soviético começa a passar por uma grave estagnação econômica. A partir de 1985 a URSS passa para o controle de Mikhail Gorbachev, que propõe reformas políticas e econômicas mais liberais, possibilitando o fortalecimento dos grupos nacionalistas na maioria das repúblicas que aspiravam sua liberdade. Entre os movimentos de independência, três grupos se mostraram fortes o bastante para combater os soviéticos: Rahvarinne da Estônia, Tautas Fronte da Letônia e Sąjūdis da Lituânia.

Sajudis

Descontentes com a posição do governo central, no dia 15 de julho de 1989, na cidade de Pärnu, na Estônia, representantes destes grupos se reuniram para formalizar uma ação solidária comum entre os três países que demonstrasse para o governo soviético e para todas as nações do mundo sua unidade e determinação na busca da independência, além de exigirem o reconhecimento público dos protocolos secretos do pacto (a URSS negava a existência dele, afirmando veemente que os estados bálticos haviam se juntado voluntariamente ao regime).

go home red army

https://visit.kaunas.lt/en/kaunastic/28-years-ago-today-the-baltic-chain/

Decidiram assim pelo ato denominado Baltijos Kelias (O Caminho do Báltico) que por meio de um cordão humano uniria Vilnius, a capital da Lituânia, até Tallinn, capital da Estônia. O dia escolhido foi 23 de agosto de 1989, aniversário de 50 anos da assinatura do pacto que trouxe tanta angústia e tristeza para aquelas nações. Às 19h00 daquele dia um sinal de rádio foi ouvido, o que levou cerca de 2 milhões de pessoas a se enfileirarem pelos 675,5 quilômetros desde a Torre de Gediminas em Vilnius até a Torre de Hanner em Tallinn. Os manifestantes, com velas nas mãos para lembrar os heróis que morreram lutando pela liberdade, receberam apoio de toda a sociedade.

baltijos kelias - caminho do báltico

http://visitneringa.com/lt/ka-nuveikti/renginiai/lietuvos-spaudos-fotografu-klubo-paroda-laisves-vardan-skirta-baltijos-keliui-ir-lietuvos-simtmeciui-pamineti/

O povo da Lituânia (também da Letônia e da Estônia) fez o melhor que pôde para chegar à marcha; em cidades maiores a partilha de caronas não era suficiente porque não havia tantos carros naquela época. Em Kaunas, por exemplo, os cidadãos basicamente ocupavam a estação central de ônibus e pediam permissão para usar o transporte público para chegar lá.

baltijos kelias 2

https://visit.kaunas.lt/en/kaunastic/28-years-ago-today-the-baltic-chain/

Como forma de unificar e fortalecer ainda mais o movimento, o compositor letão Boriss Rezņik escreveu uma canção trilíngue chamada “The Baltics Are Waking Up” (em português, “Os países bálticos estão despertando”; em lituano, “Bunda jau Baltija”; em letão, “Atmostas Baltija”; em estoniano, “Ärgake, Baltimaad”). Inicialmente todos cantaram em voz baixa, até que ganham força para proclamar o refrão "Irmão, irmã, juntos ficamos de mãos dadas pela Liberdade!".





Manifestações de solidariedade apoiando o Caminho do Báltico aconteceram em Berlim, Leningrado, Moscou, Melbourne, Estocolmo, Tbilisi, Toronto e em outras partes do mundo. A Comunidade Lituano-Brasileira também participou ao organizar um protesto pacífico na avenida Paulista, em São Paulo. Com o slogan “Brazilija laisva, Lietuva – taip pat!” (Brasil livre, Lituânia também) membros da nossa comunidade, entre eles alguns trajando roupas típicas lituanas, balançavam cartazes e cantavam em prol da liberdade. Também houve manifestantes em frente a Embaixada Russa de São Paulo que condenavam o Pacto Molotov-Ribbentrop e pediam a independência das três nações.

Fotos: Danute Baltrukonis - https://www.facebook.com/LietuvosgeneraliniskonsulatasSanPaule/posts/2016766151682590

O Baltijos Kelias, reconhecido tanto pelo governo central da URSS quanto mundialmente, tornou-se um dos principais movimentos pró-independência dos países bálticos. Foi graças a ele que o II Congresso de Representantes do povo da URSS admitiu, embora com algumas ressalvas, que o Pacto Molotov-Ribbentrop realmente feriu as leis internacionais, tirando a soberania dos países bálticos ao proporcionar a posse territorial das três nações para a URSS. Assim, o Baltijos Kelias foi uma das campanhas mais importantes, generosas e solidárias, sendo a partir dele que lituanos, letões e estonianos puderam iniciar a restituição dos seus Estados Nacionais.

Fotos: Gunārs Janaitis, Vilhelms Mihailovskis, Aivars Liepiņš, Vitālijs Stīpnieks, Uldis Briedis, Gunārs Janaitis - http://www.thebalticway.eu/en/history/

Até hoje esse dia é relembrado nos três países como parte do Dia Europeu em Memória das Vítimas do Stalinismo e do Nazismo, também conhecido como Dia da Fita Preta, além de ter sido incluído no Registro da Memória do Mundo pela UNESCO.

http://visitneringa.com/lt/ka-nuveikti/renginiai/lietuvos-spaudos-fotografu-klubo-paroda-laisves-vardan-skirta-baltijos-keliui-ir-lietuvos-simtmeciui-pamineti

Escrito por Andréa de Alencar Kasteckas

Referências:

ANUŠAUSKAS, Arvydas, BUBNYS, Arūnas, KUODYTĖ, Dalia, JAKUBČIONIS, Algirdas, TININIS, Vytautas ir TRUSKA, Liudas (org). Lietuva 1940 - 1990: Okupuotus Lietuvos Istorija. Vilnius: Lietuvos Gyventojų Genocido ir Rezistencijo Tyrimo Centras, 2007 (tradução livre do autor).

BUMBLAUSKAS, Alfredas, EIDINTAS, Alfonsas, KULAKAUSKAS, Antanas e TAMOŠAITIS, Mindaugas. Historia de Lituania. Vilnius: UAB BALTO, 2013 (tradução livre do autor).

1IT´S KAUNASTIC. 28 Years Ago Today: The Baltic Chain. Disponível em: https://visit.kaunas.lt/en/kaunastic/28-years-ago-today-the-baltic-chain/. Acessado em 19/07/2019 (tradução livre do autor).

MVCS: MADISON-VILNIUS. History & the Cantata. The Singing Revolution. Disponível em: http://www.madisonvilnius.org/new-page-1. Acessado em 19/07/2019 (tradução livre do autor).

RODRIGUES, Pedro Henrique. Pacto Germano - Soviético. Disponível em: https://www.infoescola.com/historia/pacto-germano-sovietico/. Acessado em 19/07/2019.

TANJI,Thiago. Último líder da União Soviética, Mikhail Gorbachev chegava ao poder há 30 anos. Crise econômica e ascensão da era da informação são alguns dos fatores que ajudam a compreender a queda da superpotência socialista. Disponível em: https://revistagalileu.globo.com/Sociedade/noticia/2015/03/ultimo-lider-da-uniao-sovietica-mikhail-gorbachev-chegava-ao-poder-ha-30-anos.html. Acessado em 19/07/2019.

THE BALTIC WAY 1989 - 2014. History. Disponível em: http://www.thebalticway.eu/en/history/. Acessado em 25/07/2019 (tradução livre do autor).

Procurar